O estilo “pedagogizador”
limita-se a instruir, reproduzir conhecimento, aplicar técnicas ao aluno, tratado como objeto a ser
conhecido e treinado. Este é o papel da escola na sociedade disciplinar de que
fala Foucault. Já Habermas propõe um modelo calcado na intersubjetividade, mais
apto a conduzir para a educação, entendida num sentido construtor de
subjetividades emancipadas, criativas, autônomas. Este é chamado “modelo
educacional”. Educar é produzir sujeitos capazes de linguagem e de ação,
calcadas em razões e argumentações justificadas, legítimas, exigências
fundamentais para atender às demandas sociais, culturais, econômicas e éticas
da modernidade.
No Brasil, os desafios são imensos, porém contornáveis mediante de políticas educacionais adequadas, cujo maior obstáculo é a escola “pedagogizadora”. Há certas transformações sociais que só ocorrerão por meio da educação construtora de sujeitos capazes e não apenas capacitados, autônomos e não apenas treinados, qualificados para a ação e não apenas para o exercício.
O enorme desafio: como despedagogizar a escola? Deve-se começar por criticar o discurso pedagogizador da eficiência,
discurso típico da sociedade técnico-científica, em que o próprio desejo de
emancipação foi obliterado em proveito do domínio técnico, cego para a
responsabilidade social e política da educação. O modo como somos educados,
isto é, treinados, tem tido resultados catastróficos. Pensemos, por exemplo, na
devastação da natureza, na ausência de políticas científicas voltadas para
pesquisa de produtos adaptados às condições de mercados de 3º mundo, na
completa ausência de investimento num desenvolvimento cujo estilo pudesse dar
conta das diferenças sociais, e não ampliá-las como vem acontecendo. A paideia
foi definitivamente varrida do mapa.
É preciso pensar logo em propostas capazes de vencer esses problemas pela educação e pensar, ao mesmo tempo, num modo de educar que, sem perder de vista o papel da escola como lugar de aprendizagem (profissões, ofícios, habilidades, excelência de ensino completo) possa fazer da escola/ educação a plataforma de mudanças, e a primeira mudança decorrerá de análises históricas de nossa realidade e pensar no tipo de saber que desejamos para nós. Evitar que o discurso técnico penetre o desejo dos homens de pensar com sua própria cabeça, andar com seu próprios pés, ou seja, aquilo que Kant mostrou ser imprescindível: homens educados, livres de tutela, exercendo o discurso publicamente, portanto, criteriosamente. É o que Foucault chamou de atos éticos de liberdade, num novo tipo de subjetividade, naquilo que Habermas chamou de homens capazes de linguagem e de ação.
O paradigma da intersubjetividade, no qual sujeitos trocam atos de fala entre si e visam ao mundo sob a perspectiva objetivante, que não se reduz nem ao significado, nem à atribuição de valor de verdade às proposições, mas é fruto de uma espécie de negociação bem fundamentada, ou seja, a argumentação.
Há um mundo visado
objetivamente; um mundo social de normas no qual expectativas de
comportamento são cumpridas; um mundo das vivências pessoais. Estes
mundos só podem ser integrados pela ação comunicativa, a única que supõe entendimento.
Diz Habermas Só o conceito de ação comunicativa pressupõe a
linguagem como um meio de entendimento (...) em que falantes e ouvintes se
referem, desde o horizonte pré- interpretado representado pelo mundo da vida,
simultaneamente a algo no mundo objetivo, social e subjetivo para negociar
definições da situação que possam ser compartilhadas por todos (1987, 138).
A prática da intersubjetividade,
produtora de sujeitos capazes de linguagem e de ação, com opinião e vontade
formadas de modo a possibilitar liberdade comunicativa, calcada em razões e
argumentações justificadas, legítimas, são os pressupostos de qualquer
sociedade democrática, essenciais à educação.
mundo da vida pelo sistema, mas
também deve servir para intervir no meio dinheiro e poder, de modo a
enfrentá-los pela democracia e pelo direito.
a) cultura requerendo trocas comunicativas
calcadas em conhecimento das situações, portanto, pessoas bem informadas,
preparadas;
b) normas sociais em que ética e direito
funcionem e sejam respeitados;
c) personalidades educadas, que possam pensar
com sua própria cabeça e andar com suas próprias pernas, isto é, emancipadas e
autônomas, o que se obtém pela educação e não pela pedagogização.
Infelizmente, no Brasil, a grande maioria das escolas são pedagogizadoras: preocupam-se somente em reproduzir conhecimentos. E o verdadeiro fim da educação não é este. É o inverso: formar cidadãos críticos e atuantes em nossa sociedade, para que consigam mudar essa triste realidade de nosso país, tão desigual, em todos os setores.
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