A maiêutica socrática ocupa até hoje um lugar incontestável na reflexão
filosófica sobre métodos de ensino, uma vez que responde, de uma perspectiva
platônica e mesmo neoplatônica, ao paradoxo do conhecimento colocado pelos
sofistas:
como é possível conhecermos algo do qual não sabemos nada? Para esses
professores itinerantes, não haveria um conhecimento absoluto a ser
transmitido, todo o saber possível se reduz a meras opiniões refutáveis por
hábeis argumentos. Para combater o relativismo presente nos argumentos dos
sofistas, Platão recorre a mitologias e entidades metafísicas, esboçando em um
de seus diálogos de transição, Mênon,
pela primeira vez, a sua teoria da reminiscência, ou seja, a idéia de que a
alma é imortal e que teria contemplado todas as verdades possíveis em outras
encarnações. Para ter acesso a estes conhecimentos verdadeiros, esquecidos pelo
simples mortal, seria necessário um trabalho de rememoração: através de
perguntas e respostas submetidas às leis da dialética, o discípulo poderia ser
conduzido, sim, a uma realidade objetiva, absoluta e perene.
Não só no diálogo Mênon, como em outros de
Platão, o personagem de Sócrates, pressupõe a existência de essências por trás
das múltiplas manifestações de nossos conceitos, como os de virtude, justiça,
temperança, coragem, etc., cujos significados precisos e exatos são
investigados por ele através de conjecturas e refutações, sempre partindo das
crenças iniciais de seus interlocutores para em seguida obrigá-los a reformulá-las, passo a passo, com o
objetivo de irem aproximando-se de seus significados essenciais. Em Mênon,
para demonstrar a possibilidade efetiva do acesso a um verdadeiro conhecimento
recorre a um diálogo entre Sócrates e um escravo de Mênon, que nunca havia
aprendido geometria antes, mas que, não obstante, vai sendo conduzido
paulatinamente por Sócrates até deduzir “por si só” o teorema de Pitágoras.
Sucintamente, eis como isto ocorre: Sócrates inicia desenhando um quadrado no
chão, perguntando em seguida ao escravo, qual seria o tamanho do lado de um
quadrado cuja área fosse o dobro do quadrado inicial. Sempre partindo das
respostas convictas do escravo, Sócrates vai reformulando-as, introduzindo
novas figuras, até que, já no final do intenso interrogatório o escravo, já
exausto, vê desenhado por Sócrates um quadrado que satisfaz as condições
do problema matemático. O lado desta última figura tem como medida a hipotenusa
do triângulo retângulo contido no quadrado inicial, configurando-se, assim, uma
das possíveis demonstrações geométricas do já conhecido teorema de Pitágoras.
Deste modo, Platão demonstra concomitantemente a possibilidade de se alcançar
um conhecimento absoluto (como eram consideradas as verdades matemáticas), e,
por conseguinte, irrefutável, bastando para isso a aplicação de um método
que conduza à rememoração de saberes já contemplados pela alma do escravo.
Conclui neste diálogo que “ignorar é ter esquecido”, e “aprender é recordar”
essências existentes a priori em um lugar celestial.
A Maiêutica Socrática tem como significado "Dar a luz (Parto)" intelectual, da procura da verdade no interior do Homem. Sócrates conduzia este parto em dois momentos: No primeiro, ele levava os seus discípulos ou interlocutores a duvidar de seu próprio conhecimento a respeito de um determinado assunto; no segundo, Sócrates os levava a conceber, de si mesmos, uma nova idéia, uma nova opinião sobre o assunto em questão. Por meio de questões simples, inseridas dentro de um contexto determinado, a Maiêutica dá à luz idéias complexas. A maiêutica baseia-se na idéia de que o conhecimento é latente na mente de todo ser humano, podendo ser encontrado pelas respostas a perguntas propostas de forma perspicaz.
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